Press

13/03/1997 in Jornal da Marinha

OS CRASH VÃO VOLTAR À PRISÃO

NOMES OCULTOS PELO DESTINO

   O programa era simples, um concerto numa prisão em Leiria, em que participava uma banda conhecida da Marinha Grande. A emoção e o total desconhecimento do que se iria passar, era um pouco temível e alucinante, mas ao mesmo tempo despertava uma curiosidade tão forte que nos levou a assistir a todo o percurso dos CRASH (banda convidada), pelos corredores e afins de uma das muitas prisões Portuguesas.

   Formavam-se ideias e opiniões do que se poderia encontrar num local odiado por muitos e esquecido por outros, criavam-se expectativas do comportamento daqueles que foram condenados, esquecidos, ignorados e marginalizados por uma sociedade em constante crescimento.

   Apenas com a imagem de estabelecimentos prisionais dos filmes, que nos alertam para problemas, que só se conseguem compreender quando se está lá dentro, os CRASH e o JMG, foram às escuras, fazer "a festa da Marinha", para todos os Vidreiros existentes na Prisão Regional, em Leiria.

   Quanto aos CRASH, banda formada por Donato, João "Pirete", João Baroseiro e Lemos, pode-se dizer que fizeram um espectáculo de deixar a Marinha orgulhosa, do poderio músical que já se faz por cá. Com uma hora de espectáculo, no "recreio" dos Homens, interrompido muitas vezes por vários artistas reclusos, que também queriam participar na festa, com poemas, música "Cigana", e até música "de Igreja", com uma improvisação de vários reclusos a lerem e a cantarem trechos, de textos religiosos. Foi então, a vez dos Crash, pegarem em duas guitarras, uma tarola e um batuque, e fazerem uma serenata na "zona" Feminina. Sentindo-se discriminadas, as reclusas, conscientes de que também mereciam participar na festa, decidiram pedir ao Padre que os acompanha à longos anos, e à Dona Gracinda (principais mentores desta iniciativa), que os Crash também por ali passassem. E assim foi, deixaram os Irmãos Domingues (outros Marinhenses, empenhados neste espectáculo), a tocar para os homens, e foram fazer uma pequena improvisação às mulheres, que apoiaram e participaram na festa de uma maneira irrepreensível.

   Com a festa já terminada era visível na cara de tantos homens, a alegria, que um grupo de jovens Marinhenses conseguiu transmitir, e ao mesmo tempo uma mágoa de não os poder vêr mais vezes. As despedidas foram difíceis, trocaram-se moradas, deram-se abraços de esperança àqueles mais conhecidos, desejou-se misericórdia para os menos arrependidos, deixaram-se promessas de um dia voltar, fizeram-se votos de no futuro os ver cá fora a lutar por uma vida igual a tantas outras..., enfim despedimo-nos de um grupo de pessoas a quem a vida não tem sido amiga.

   Já na volta e conversando com alguns membros dos Crash, concluímos que o aspecto físico de uma prisão, assemelha-se a todas as outras já vistas na televisão, mas que o sentimento com que se fica, quando entramos num local daqueles, é tão inexplicável que nos faz pensar que tudo foi um sonho.

   Não quero que pensem que estou contra a prisão e quanto à descriminação de todos estes reclusos, mas também não me podem impedir de ter um sentimento de piedade e de esperança para com todos os homens que se encontram naqueles lugares tão frios e vazios.

   Não deixa de ser curioso, que enquanto os vemos cá fora fazemos força, e por vezes até lutamos para os pôr lá dentro, e quando os vamos visitar lá dentro dá-nos uma vontade tão forte, como a vontade de mudar o mundo, para os ver cá fora. Sem nomes, tentando esquecer o passado, e sem previsões de futuro, assim se vão perdendo os sonhos daqueles a quem o destino os condenou...

   Como motivo de orgulho de um trabalho bem feito, resta-nos, deixar dizer que no dia 3 de Abril, este grupo Marinhense, os CRASH, vão voltar, como anteriormente tinham prometido.

   Um dos muitos poemas, recitados numa tarde encalorada pelo sol e pelas visitas dadas aos reclusos da Prisão Regional de Leiria...

"Grande Injustiça"

 

Considerava-me um homem livre

duas horas antes, de um juiz me condenar

As suas ordens foram: anos de prisão!

A sua última frase: pode-se retirar!

Assim em pleno tribunal.

Desce as escadas passo a passo,

porque além da liberdade perdida...

perdi os meus sonhos e minhas vontades.

Comigo, me acompanham tristezas e mágoas

mágoas de tanto sofrimento e solidão

já não tenho o sentido do tempo.

Estou contrariado de tanto sofre

por os meus sonhos ver passar.

Estava morto, sem expressão na face

numa tarde triste e fria

sobre leis que desconhecia.

Mentalizei-me a 100%

de que já nada me valia

neste mundo imundo de tristezas

enfrentando uma sociedade..

Uma sociedade hipócrita e corrupta.

Fui julgado e condenado

por uma lei incompreensível

NÃO É JUSTO !!!

 

   Escrito..., entre quatro frias paredes, por um lápis de solidão, com um bico afiado e aguçado pela dor que o prossegue, num papel cheio de linhas e escasso de esperança...., por Manuel Henriques Barreiro.