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07/11/1996 in Jornal da Marinha

CRÓNICA DO IMAGINÁRIO

( Trazemos até si , tudo o que vem até nós )

Excelentíssimo

Senhor doutor Fernando Lopes

    Em primeiro lugar gostaria de lhe pedir desculpa , por todo este atrevimento. Como já deve ter calculado , a minha arte não é a escrita , não embelezo páginas com linhas e traços e nem tão pouco pego em lápis.

    De música só conheço o Folclore lá da minha terra (...e aquele chouriço!) e o cantarolar de castelhanos e serralheiros que lá tenho no alpendre , para me fazerem companhia nas horas mais "felétes", como diria o meu neto.

    Como ,"não se devem misturar as obras do mestre Picaço com a pica de aço do mestre de obras",já dizia o nosso amigo Alfredo Trincha. Ou seja, o senhor doutor mergulha o pincel em linhas e mais linhas do papel ,que bem podia ser reciclado, e eu embora á beira da reforma , continuo a mergulhar e a colher a talocha no cimento e derivados, e a receber 500 marrecos à hora .

    Foi numa bela tarde , enquanto rebocava com cuidado e carinho , as paredes da vizinha , que pedi umas folhecas de papel . Não para ler , mas sim para proteger os lindos mosaicos que pisava , da cor cinzenta e escura da minha argamassa. De repente com descuido ou intenção (não sei!), reparei que de entre as folhas do jornal , havia um anuncio menos normal , que nos alertava para um bailarico que iria decorrer em Moinhos de Carvide.

    Como à sexta-feira a Maria pouco sai , e as enxaquecas não a largam , resolvi pedir-lhe uma folga para mim e para a minha talocha , irmos dar uma espreitadela no forró. Com o tostão bem contado e a motoreca bem equipada , lá fui eu gastar 300 marrecos na entrada , e o resto na bejéca.

    E olhem que até gostei das cristas de galo ,que traziam na cabeça ; dos trajes escuros para não fazer mal aos olhos , que quase sempre andavam entreabertos ( seria por causa dos cigarros com cheirinho?) ; das calças apertadas (cuidado rapazes , pensem bem se querem ter filhos) e do cheiro a cavalo cansado que pairava no ar . Só o frio que fazia tremer a dentadura a qualquer um e os conjuntos que tocavam modas que nada tinha a ver com as da minha gente ( nem um tango tocaram ) é que não me deixavam dar um pézinho de dança.

    Mas é claro que eu não tive a ousadia de lhe escrever , só por causa da aparência de todo o pessoal . A força que me veio de dentro , deve-se a uma pergunta pertinente que me acompanha desde sexta-feira , "sabendo que metade do público era da Marinha Grande , e que na Marinha também à espaço para bailaricos como aquele , será que é da falta de organizadores ou de bandas , para um espectáculo como aquele ter lugar cá para estes lados ?" E para atenuar , os apoios vieram quase todos da Marinha Grande...

De colher e talocha na mão ,

sempre ao seu dispor

VITOR JEREMIAS

servente de ocasião